O Espelho Maldito

Escrito originalmente em: 25/08/2015
Para o DTRL, edição 24.

A carta a seguir foi encontrada no quarto 205 da clínica de reabilitação mental Santa Clara, sobre a cama vazia da paciente que estivera instalada ali nos últimos meses. A jovem, de nome Luisa de Lima, desapareceu pela manhã e está sendo procurada em todos os cantos da cidade.
Segundo ao Dr. Algusto Freire, que vinha acompanhando-a, Luisa não possui capacidade intelectual o suficiente para estar solta pelas ruas, podendo representar um alto grau de periculosidade para todos, inclusive à ela mesma.
Seu tio, o delegado Prudêncio de Lima, oferece uma farta quantia em dinheiro para qualquer um que saiba indicar o paradeiro da sobrinha.
Sobre o texto deixado por ela, os médicos ou enfermeiras não sabem dizer como pode ter sido redigido, haja-vista que Luisa é completamente cega e não tem contato com outros pacientes que poderiam tê-la auxiliado no ato. Os mais supersticiosos falam até mesmo de uma possível atividade paranormal!
Independentemente da maneira com que o documento foi transcrito, você vai conferir a seguir seu conteúdo na íntegra! Boa leitura, e boa sorte...

****

Eu me lembro com clareza do dia em que adquiri aquele espelho. Não faz muito tempo, tudo aconteceu a exatamente três semanas.
 Era um dia comum, eu estava em meu carro, voltando da faculdade com minha amiga Juliana. Após deixá-la em sua casa que ficava a pouco menos de seis quadras da minha, continuei meu caminho.

Lembro de olhar pela janela e notar o dia mais escuro, o céu repleto de nuvens negras e pesadas. "Ótimo, uma chuva!" pensei. "Era tudo que eu precisava." Sempre que chovia a rua em que morava se transformava em um mar de lama, e eu havia lavado o carro naquele mesmo dia. Uma merda de um dinheiro desperdiçado!

Mal terminei meu pensamento a chuva caiu com tanta força que era difícil enxergar um metro a frente. Vendo que não haveria como continuar o caminho com aquela tempestade, decidi estacionar o carro em um velho posto de gasolina que encontrava-se por perto para esperá-la passar. 
Esse foi meu primeiro erro.

Desliguei o motor e relaxei, pensando em um jeito de conseguir terminar aquele trabalho enorme que a professora de literatura havia passado na última aula.
Trovões começaram a ribombar no céu; Raios caíam a poucos quilômetros de distância, de modo que a luz cegante invadia meu carro, me causando ocasionais sustos. Estava realmente cansada, senão nunca haveria cochilado em meio aquela devastação nos céus.

Toque toque toque

Tive um sobressalto e acordei assustada.

Toque toque toque

A batida continuou persistente na minha janela, a chuva não havia parado.
Intrigada, olhei e tentei identificar quem estava batendo, no entanto os raios haviam cessado e nada iluminava o local.

Desci um pouco o vidro da janela a fim de enxergar melhor,  pensando que  podia ser alguém precisando de ajuda.

– O-oi – disse diante do sorriso grotesco que estava fixado nos lábios secos da mulher que me espiava sem realmente me ver, através de olhos brancos quase totalmente ocultos por um véu escuro.
– Precisa de ajuda?

– Sim, minha querida. Preciso sim. Sou uma vendedora, passei aqui e gostaria que olhasse minhas mercadorias – respondeu em tom elevado para que eu ouvisse  através dos trovões.

A pobre velha aparentava tanta fraqueza e frio que tive ímpetos de convidá-la a entrar e aquecer-se. Mas, as broncas de minha mãe sobre não me  aproximar muito fisicamente de estranhos  vieram a mente, fazendo-me mudar de ideia.

– Que tipo de mercadorias? – perguntei em tom igualmente alto, realmente curiosa sobre o que qualquer pessoa normal, sobretudo uma velha com aparência tão debilitada, poderia vender em uma noite como aquela.

 Ela me lançou um sorriso amarelo, e retirando uma velha bolsa de couro do ombro começou a falar:
– Óh, querida! Minhas mercadorias são de primeira qualidade. São antigas, muito antigas. Você não as encontrará em lugar nenhum – Revirava na bolsa enquanto falava.

Eu suspirei. Aquilo já estava ficando irritante.

– Ok, mas o que a senhora vende?

– Há, para você eu tenho algo especial, Luísa. Algo muito especial!

Eu deveria ter notado naquele momento que não havia dito meu nome, no entanto a velha já o sabia. Também deveria ter notado  a maneira com que   seus olhos supostamente  cegos estavam fixos nos meus. Mas não, eu não notei. Apenas sorri de admiração quando esta retirou finalmente algo de sua bolsa velha.

Era um espelho, um lindo e pequeno espelho, com moldura de prata na qual havia pequeninos diamantes incrustados.

– Fique com este, boneca. Aprecie sua beleza todos os dias e agradeça a natureza por seus olhos azuis e por seus longos cabelos escuros... – A frase foi complementada com mais alguma coisa, porém eu já não a ouvia. Nem mesmo reparara que apesar de cega, a velha me descrevera perfeitamente.
Estava completamente encantada com o pequeno espelho. Abaixei mais o vidro da janela e estendi a mão para apanhar o objeto, ato que fez com que seu sorriso se tornasse maior.

Fitei meu próprio reflexo, admirada com o que via. Será que sempre fora assim tão bela? Será que meus olhos sempre haviam sido tão azuis e límpidos? Não era possível que eu sempre tivera cabelos tão luxuriantes e nunca percebera!
Perdi-me no tempo a  observar, a admirar aquilo que sempre estivera diante de meus olhos e eu nunca notara.

Então um raio iluminou o interior do meu carro, me tirando do transe e me fazendo lembrar da velha. Olhei pela janela, mas ela não estava ali. Eu me dei conta de  que ela nem havia dito seu nome ou recebido algum pagamento. Bom, melhor para mim. Não tinha dinheiro mesmo.

Guardei o espelho em um bolso separado de  meu casaco para que  não se perdesse em meio as bugigangas que eu gostava de carregar pra cima e pra baixo na bolsa, pegando meu celular em seguida.

Levei um susto ao verificar as horas: 00:15. Eu havia deixado Juliana em sua casa as 16:24. Como ficara ali tanto tempo? Será que dormira demais ou será que passara  horas me contemplando no espelho? Não sabia dizer. Só sabia que já era tarde e que deveria ir para casa de uma vez por todas, se não quisesse ser morta por minha própria mãe.

Olhando para fora vi que a chuva já havia estiado. Dirigi os poucos quilômetros que faltavam, parando ocasionalmente para me fitar no espelho.

Nos dias que se seguiram, me admirar no espelho se tornou cada vez mais necessário em minha vida: matava a maioria das aulas para ficar no banheiro apenas me contemplando; Não escutava mais ninguém nas conversas rotineiras; Não conseguia dirigir sem parar para me fitar algumas vezes durante o trajeto.
Inicialmente, isso só acontecia   enquanto o sinal estava vermelho, mas, depois, tornou-se tão frequente que o fazia até mesmo enquanto realizava curvas e adentrava ruas.

Certa noite eu voltava para casa sozinha, era sexta feira e o trânsito estava mais movimentado. Eu sabia que não deveria parar para me olhar no espelho enquanto dirigia, que era por este motivo que Juliana e Marina não aceitavam mais minhas caronas. Eu sabia de tudo isso, mas mesmo assim retirei o espelho do bolso do casaco (onde ele ficava desde quando o comprara da velha na estrada) e fitei meu belo rosto.

Ah, como adorava minha imagem. Era tão linda, com olhos tão azuis. Cada dia ficava mais radiante. Cada dia mais bonita, confiante.

puuuunc

– Você está bem? – disse uma voz ao longe.

Estava perdida entre a amarga consciência e a doce inconsciência. Nuvens negras dançavam ao meu redor.  Uma névoa perfumada enchia meus pulmões.

– Luísa, você acordou?
Era a voz de minha mãe. Empurrei a névoa e abri os olhos devagar.

Estava em um quarto branco com janelas grandes, e lá fora  o céu era muito escuro. Como fora parar ali?
Minha cabeça latejava um pouco e minha saliva tinha um gosto amargo que não conseguia identificar. Movi os olhos e avistei minha mãe, parada ao lado da cama onde eu estava, segurando  minha mão esquerda e me encarando estranhamente.
Seus olhos eram  uma mistura de piedade, preocupação e raiva.

Uma enfermeira se aproximou de mim, com um sorriso fixo nos lábios finos e ressecados. Ela era feia, com cabelos crespos e pele flácida. O jaleco branco não ajudava, deixando sua aparência ainda mais detestável.

Franzi a testa. Naquele ponto, já não gostava de ser obrigada a ver imagens tão horríveis como a daquela mulher. Gostava apenas de mim mesma, com todo meu esplendor e beleza.

– Você está bem? – Quis saber ela.

Respondi que sim e uma série de perguntas sobre meu estado físico e mental foi iniciada. Sendo todas as respostas positivas, ela sorriu e disse que logo eu poderia ir para casa.

– Mãe, o que aconteceu? – perguntei quando a porta foi fechada atrás da enfermeira.

Minha mãe me contou que eu sofrera  um acidente, que meu carro jogara outro para fora da pista e que este pegara fogo, matando um pai, uma mãe e 4 crianças pequenas. 

– Agora você vai ter que passar a se cuidar melhor! Quase arrumou problemas com a polícia, Luisa, quase! A sorte é que seu tio prometeu cuidar de tudo, já que a cidade é pequena e ele é o delegado – complementou a história com um sermão.

 Não sei como não percebi que naquele momento, a única coisa que me veio a mente foi: "Onde está meu espelho?" Apalpei o casaco que ainda vestia e lá estava ele, perfeitamente onde deveria estar. O peguei e comecei a namorar meu reflexo, notando-me tão radiante e bela como  nunca.

Minha mãe puxou meus cabelos, obrigando-me a  olhar para ela.
– Luísa, você está me ouvindo? Precisa ter mais responsabilidade! Matou uma família inteira! Crianças, Luísa! Elas morreram por sua culpa!
 Sei que não tem sido responsável no volante, sei que para de dirigir para se olhar  nessa merda de  espelho, que não liga se causa problemas para alguém!

Eu me enfureci. Quem ela pensava que era? E foi isso que perguntei.
 Ela me olhou com tanto rancor e mágoa que quase me arrependi; Mas, apenas quase, afinal ela não tinha de se meter na minha vida daquela maneira.

– Luísa, você não entende... – Sua ladainha foi interrompida por um  médico bonito de cabelos claros que entrou na sala declarando que eu já podia ir para casa.

Senti-me tão grata por ele ter  interrompido  as chatices da minha mãe que dediquei a ele o meu melhor sorriso sedutor, o que o fez desviar o olhar  envergonhado.
É, não devia  ser comum receber sorrisos provocantes de  alguém tão linda quanto eu! 

Guardei o espelho no bolso habitual e fui para casa, dessa vez no carro de minha mãe que se recusou terminantemente a deixar que eu dirigisse.

Contemplei minha figura a viajem toda, parando ocasionalmente para ordenar que minha mãe calasse a boca e me deixasse em paz. Cheguei em casa e continuei a me olhar no espelho enquanto comia uma maçã e também enquanto penteava os cabelos para dormir.

Naquele fim de semana não se passou um minuto em que eu não estivesse me fitando, admirando minha beleza. Minha mãe tentava me fazer conversar, no entanto eu não tinha interesse em nada que não fosse me contemplar em meu adorado espelho de prata.

Ah, como gostaria de ter escutado minha mãe, nada disso teria acontecido se o tivesse feito.

E então chegou a segunda feira, e me recusei a ir para a faculdade. Com berros e lágrimas minha mãe tentava me obrigar, mas eu não me importava mais com seus sentimentos ou com meu futuro. Na verdade, não me importava que nenhuma de minhas amigas me procurasse mais, ou que meus deveres da faculdade acumulavam-se desmedidamente. Não olhava redes sociais, muito menos chegava perto de livros.

Não percebi que estava perdendo peso; Que meus cabelos estavam caindo aos montes no pente. Tampouco que já não comia ou bebia nada. Nem ao menos escovava os dentes ou tomava banho. Nada era mais importante do que meu reflexo encantador naquela superfície imaculada.

  Minha mãe, ah, minha pobre mãe; Ela tentou, tentou de todas as formas me tirar daquele transe.
E foi isso que determinou seu fim; Nosso  fim.

No sábado seguinte acordei e ao apalpar o bolso tive um sobressalto. Não senti o reconfortante objeto de metal que deveria estar ali. Sim, ele deveria. Onde estaria se não comigo?

Revirei meu quarto inteiro, retirei todas as roupas do armário e enquanto fazia isso eu gritava e chorava, me mordia, estava em desespero.

 Não encontrei meu espelho, mas sim outro, velho. Um que eu esquecera de quebrar quando dera fim em todos os que tinha em casa. Espelhos comuns não valorizavam minha beleza, e com o que eu segurava a coisa parecia ser ainda pior.

Gritei mais alto ao vislumbrar  a figura que me encarava de dentro do vidro rachado, com olhos vidrados e vermelhos.
Quem era aquela garota com bochechas encovadas e olhos fundos? Não era eu. Não tinha cabelos ralos e dentes podres, não era eu. Eu era bela! Eu era perfeita!

Corri para fora do quarto e avistei minha mãe sentada a mesa tomando café.
 Pela maneira surpresa e assustada com que  ela me olhou, eu soube; Eu apenas soube que havia sido a maldita que roubara meu precioso espelho.

– Luísa, o que foi que...
Um grito de dor impediu que ela terminasse de falar. Eu havia apanhado a garrafa de café quente e derramado sobre sua cabeça.

Ri descontroladamente enquanto  pegava uma faca suja de manteiga e destruía seu rosto. Ela desejava meu espelho, desejava ser bela como eu era. Mas não seria, a maldita seria feia para sempre!
 Retalhei seu rosto e seu corpo inteiro, enquanto ela gritava, gritava sem parar. Os vizinhos escutaram os berros e alguém arrombou a porta.

Dei a última facada no peito de minha mãe enquanto braços fortes me seguravam por trás. Gritei, gritei, berrei e ataquei em alguns dos caras que tentavam me tirar da casa. Não sairia sem meu espelho, não sairia!

Um deles tomou a faca de cozinha da minha mão, e depois do que me pareceu anos fui colocada em uma camisa de força. Tentei me esquivar da agulha que aplicavam em meu braço, No entanto, não consegui. Tudo ficou escuro.

As paredes se transformaram em enormes labaredas escaldantes, o chão era feito de cacos de vidro. Olhei para frente e lá estava a velha que me vendera o espelho, dessa vez sem nenhum véu que lhe cobrisse o rosto grotesco.

 Ela gargalhava alucinadamente, deixando escapar entre um ato e outro as seguintes palavras:
– Olhe-se! Olhe-se no espelho, boneca! Olhe-se no espelho! Veja a assassina de sua mãe, de quatro crianças e dois jovens pais! Olhe-se! Admire seus olhos azuis  e seus longos cabelos escuros, enquanto não se torna maldita e cega!

Um arrepio percorreu minha espinha, e eu me dei conta de que sim, havia sido desta maneira que a velha terminara a frase no dia em que me dera o maldito objeto.
A agonia e o desespero que enchia meu espírito jamais poderão ser descritos, e a tortura parecia não ter mais fim.
Suas palavras consumiam tudo em meu interior, secando-me por dentro tal qual a maldição narcisista fizera com o lado de fora.

Em dado ponto as labaredas e a velha desapareceram, e eu acordei em um pequeno quarto, onde estou a uma semana e dois dias. Tempo este, aliás, que parece desenrolar-se para a eternidade.

Recordo de que ao acordar e me sentar na cama, movias mãos para apalpar o bolso do casaco em um movimento automático. Não era possível, lá estava o espelho, tal qual sempre estivera!

O peguei com as mãos trêmulas; Um berro ecoou pelo prédio da clínica de loucos quando constatei que ele mostrava a mesma garota que me encarara através do vidro rachado, em meu quarto.
Eu era feia, cabelos ralos e esbranquiçados, tão detestável quanto a velha.
 Era o reflexo de uma assassina. E uma assassina sozinha, que matara a própria mãe.
Como viveria com isto? 

 Mesmo estando detestável e sendo uma maldita, não conseguia parar de me olhar naquele objeto do inferno. Esse foi o motivo de eu ter enfiado a agulha que me transmitia soro na veia em cada um de meus olhos.

  Não sei como me pareço de fato agora, mas em meus sonhos eu me fito no espelho maldito, e vejo uma jovem que aparenta o dobro da idade, tão arruinada quanto sua vida.
E o pior: de olhos esbranquiçados e completamente cegos como a velha, a maldita velha!

Sei que um dia minha hora vai chegar, e que vou ter de escapar daqui e passar a maldição para outra pessoa tola e egocêntrica tal qual eu fui. Não sinto medo, no entanto.
Talvez destruir outra vida torne o fato da minha ter sido arruinada um pouco menos insuportável.
Portanto, você que está lendo esse relato, tome muito cuidado. Quem sabe um dia não nos encontremos em alguma estrada escura, não é mesmo?

2 comentários em “O Espelho Maldito”

  1. Bia Alan Poe! rsrs, que texto macabro! porém muito espetacular, narrativa muito bem escrita e detalhada. Meus parabéns mais uma vez querida, você merece todo o sucesso nos caminhos das letras. Um forte abraço!

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